Show dos Lips, um ano depois

A preguiça é a mãe da invenção. Ou não?

Pra não precisar escrever tudo de novo, resgato um texto do finado Notícias do LC. Quase melhor show da vida, se Wilco não tivesse sido tão foda, um mês antes.

Boa leitura.

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Postado originalmente em 4 de dezembro de 2005
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Preciso erguer um altar às empresas de telefonia celular. Primeiro, a TIM, que traz Wilco. E agora, a Claro, que trouxe Stooges, Nine Inch Nails e Flaming Lips. Minhas duas bandas favoritas (Wilco ganha por uns milímetros de Flaming Lips) em menos de um mês. Viva o celular! (apesar de dar câncer).

Só falta confirmarem show do Radiohead na Argentina. E ainda tem Rolling Stones e U2 no começo do ano que vem, sendo que RS deve ser de GRAÇA. Que temporada. (UPDATE: parece que o show do Radiohead vai desmentido pelo porta-voz da banda. pena).

UPDATE MESMO: Eu fui no show dos Rolling Stones. Lero lero! =D

Pois bem, o show do Wilco foi relatado na última edição. Ainda acho esse o melhor show do ano, principalmente considerando o aspecto emocional. O que aqueles caras fazem apenas com os instrumentos deles, sem telões, sem luzes, sem pirotecnia, é sublime. O CQÉR, por outro lado, foi a apologia do efeito especial. Flaming Lips e Nine Inch Nails que o digam.

Para mim, o festival começou no início de outubro, quando os ingressos foram postos à venda. Estava no primeiro dia no local de venda para comprar o meu. Na verdade não houve necessidade para tanto desespero, pois não foram vendidos todos os ingressos (mas nada próximo do que houve no Rio, onde cambistas vendiam 3 ingressos por R$10). Mas eu não podiam conceber a possibilidade de perder o show dos Lips. Notem que, do mesmo modo que o último Notícias, eu pareço uma fanzoca de Backstreet Boys, ou qualquer outro tipo de banda que menininhas adoram quando adolescentes e depois de alguns anos tem vergonha de assumir. E eu não vejo problema nenhum nisso, primeiro porque não dá pra comparar uma banda com a outra, e segundo porque eu realmente acredito que a música pode ser muito mais poderosa do que alguns acreditam. Pode-se mudar o mundo com a música? Não, seu hippie. Pode-se mudar pessoas tentando convencê-las a escutar determinado tipo de música? Não, seu fascista, música não pode ser impingida. Mas a música pode mudar as pessoas? Podem, e como. E, portanto, eu não vejo nada de estranho, exdrúxulo ou ridículo no que vem agora.

Duas semanas atrás, uma semana antes do show, um dos caras que mora na minha república veio todo feliz pedir para mim entrar no site da rádio 89fm para escutar o programa em que a banda dele participou. Enquanto entro no site para baixar o programa, vejo uma promoção: “Suba no palco com os Flaming Lips!”. Fiquei entusiasmado. Para quem nunca ouviu falar deles: é uma banda de Oklahoma, EUA, com uns 20 anos de estrada. Sempre foram reconhecidos pelos shows anárquicos. Mas, nas turnês dos dois últimos discos, eles transformaram o show deles em algo que pode ser comparado a um circo uma festa de aniversário psicodélica: o vocalista anda dentro de uma bolha de plástico pela platéia antes do/span> show, tem máquina de fumaça, bolhas, confetes e serpentinas e, para completar, várias pessoas fantasiadas nas laterais do palco (mais ou menos mega-bichinhos Parmalat). Fui correndo me cadastrar e já mandei e-mail para um amigo meu de são paulo, o André, que é o maior fã da banda que eu conheço (depois de mim). Eu não consegui me cadastrar (problemas no site), mas não me estressei muito, eu sabia que o show ia ser espetacular de qualquer jeito.

Sábado de tarde, chego na casa do André para ir pro show, e ele já chega falando que ganhou a promoção. Ele ia subir no palco! Eu fiquei um tanto boquiaberto, mas todo mundo por lá comemorou bastante. Haviam no mínimo 20 pessoas na casa dele para ir ao show, a maioria uma galera aqui de São Carlos que tinha sido colega no curso de imagem e som, mas também tinham dois caras de Santa Cruz do Sul. Que fizeram eu me sentir envergonhado de estar perdendo o sotaque. Droga.

Cinco e pouco da tarde foi toda a patota pegar ônibus para chegar no local do show (que era longe pra burro). Busão lotado, meia hora de viagem, chegamos: estava rolando o show do Good Charlotte. Pena que ainda não tinha terminado. O ponto de encontro com os organizadores da 89fm era num posto médico ao lado do palco, e a gente ficou por perto até os caras aparecerem e o André ir junto. Quando os caras apareceram, começamos a ir embora, mas eu e o perdido (visitem www.roqueealfredo.com.br , criação dele) vimos que estava faltando gente. “e se a gente tentasse subir no palco?”. Lá fomos nós dois, e mais 4 outras pessoas que tavam junto com a gente. A saber: pereira, daniel, tati, amiga da tati (não sei o nome dela) e tiago. E não é que os caras da 89 deixaram a gente entrar?

Chegando atrás do palco, um papai noel magricelo veio nos recepcionar. Era o responsável pelas fantasias. Enquanto a gente assinava um contrato de imagem com a MTV (cedendo direitos, tomara que não tenha cedido a alma também, nem li), aparece Wayne Coyne, vocalista da banda. Eu cutuquei o André, e nossos queixos caíram no chão. Tivemos a típica conversa de fã babão e ele completou, quando o André perguntou o que devíamos fazer no palco: “Act like you were on drugs!”.

Pausa para a explicação da apologia: realmente é difícil acreditar que Wayne não toma ácido, como ele afirma. Aparentemente ele é a pessoa que mais acredita em felicidade no mundo, mas sem se deslumbrar. Exemplo: numa entrevista publicada antes do show ele disse que seria uma “celebração pré-fim do mundo”. Então, já que o mundo vai acabar, “que esse seja em grande estilo”. E, numa de suas melhores músicas, “Do You Realize??”, sai uma estrofe fantástica:

“Do you realize? That you have the most beautiful face?
Do you realize? We’re floating in space?
Do you realize? That everyone you know someday will die…

And instead of saying all your goodbyes, let them know
You realize that life goes fast,
It’s hard to make the good things last,
You realize the sun don’t go down
It’s just an illusion caused by the world spinning round…”

Desculpe, mas ao menos pra mim isso faz todo o sentido do mundo. E continuemos.

Wayne entra no camarim, nós vamos botar a fantasia. Tiago foi de gorila. Daniel de elefante. Pereira de pinguim. Tati de jacaré. Fabi de pintinho. Perdido de zebra. André de girafa. E eu de dálmata. Quando nossa felicidade não podia ser maior, aparece alguém falando que tem cerveja e água de graça. Sendo que elas custavam 4 reais a latinha e 3 reais o copo nos bares. Tem como ficar melhor? Tem.

Termina o show do Fantomas, e somos chamados para subir no palco. Atrás do telão, esperando pelo início, está Steven Drozd, multinstrumentista e cérebro musical da banda. Vestido de papai noel, mas com enchimento, então esse realmente parecia um papai noel. Vou lá conversar com ele, e quanto mostro a mão para ele apertar, ele tem que segurar a garrafa de cerveja e a de whiski na mesma mão. Bem, pra quem era viciado em heroína e conseguiu largar o vício, até que não é muito. Ele perguntou como eu conhecia a banda, e eu tive que explicar que infelizmente os cd’s deles só sairiam em dezembro (agora já saíram), e que eu conheci pela internet. Nisso aparece um cara da produção e ele vai pro palco.

Volto pro meu lado (à esquerda do palco), e todos nos preparamos. Wayne sobe no palco, faz um discurso (com tradução em português) e pede para todos contarem uma mentirinha no outro dia, dizendo que ele veio do espaço. É a deixa para ele entrar na Bolha. Ele entra e sai rolando pela platéia, e dá pra ver na cara das pessoas a felicidade brotando. Alguns já compararam um show dos lips à primeira vez em que uma criança vai ao circo. E eu concordo. Voltando ao palco, começa “Race for the Prize”, uma música que fala sobre dois cientistas em busca da cura de uma doença que irá salvar a humanidade, e como o sacríficio deles influi na sua vida pessoal. Maravilha. Logo depois, uma cover de Bohemian Rhapsody, do Queen, que eles gravaram para um tributo. O maior karaokê do mundo, fácil. A letra aparecia no telão e até pessoas que tinham preconceito com o Queen, como eu, cantaram a plenos pulmões, mais alto que o próprio Wayne (culpa da produção, que não conseguiu equalizar o som dos dois palcos do mesmo jeito. toscos. felizmente eu tava do lado da caixa de som, então ouvi tudo).

Depois, “Fight Test”. Essa fala sobre como nem sempre é possível fugir das lutas da vida, e que às vezes é necessário enfrentá-las, sem estar pronto pra enfrentá-las. E aí começou a bater o calor. Estava 15ºC, mas dentro de uma fantasia de pelúcia tava muito mais que isso. Acho que nunca suei tanto na vida. Sorte que tinha água atrás do telão. Pega a água, toma, e volta a pular. O legal é que algumas cabeças era abertas, e outras, como a minha, fechadas (não dava pra ver nada). Então a gente começou a trocar de cabeças. Teve dálmata-girafa, elefante-pinguim, zebra-macaco, um verdadeiro zoológico transgênico.

E, finalmente, a minha preferida: “The Gash”. O subtítulo dessa é “Battle Hymn of the wounded mathematician”. O refrão?

“Will the fight for our sanity
Be the fight of our lives?
Now that we´ve lost all the reasons
That we thought that we had”

Só não chorei porque não sou disso. Mas acho que nunca vi meu sorriso maior. Depois, a música que batiza o último cd, “Yoshimi Battles the Pink Robots”. Uma música de amor? Sei lá, mas Wayne tentou fazer todo mundo cantar junto, com um fantoche de freira na mão. E o povo cantou, apesar de não saber o que se passava. Terminada a música, Wayne fala sobre um presente que ganhou de um fã em Indiana, um tecladinho de criança com sons de bichinhos. E acontece a “Cow Jam”, basicamente Wayne apertando alternadamente o botão da vaca e do pato e Steven mandando ver na guitarra. Aliás, Steven dava um golão no whiski ao fim de toda música.

Chegando perto do fim do show, finalmente o maior hit deles, “She Don’t Use Jelly”, de 1993. Essa fala sobre uma garota que prefere que seu cabelo seja realmente laranja, então usa tangerinas para tingí-lo. Entre outras loucuras. Não é minha preferida, mas tem um baita riff de guitarra, grudento que só ele.

O momento da apoteose: “Do You Realize??”. Todos os bichinhos se abraçando no palco e fazendo coro. Pelo menos os do lado esquerdo, porque no lado direito tinha muita gente que nem sabia o que ia fazer quando resolveu participar do sorteio. E pensar que tanta gente queria estar lá e não pode. Tsc.

Finalizando o show, Wayne faz um discurso criticando Bush e emendam “War Pigs”, do Black Sabbath. Primeira vez na história que um dálmata faz air guitar, acho. E, pra tristeza de todo mundo, Wayne agradece e o show acaba. O público pede mais, mas Stooges já vai começar no outro palco. Saímos todos, devolvemos a fantasia, e vamos assistir ao próximo show, todos ainda estranhamente quietos. Quando finalmente caiu a ficha do que tínhamos acabado de fazer, foi impossível não notar os sorrisos de satisfação na cara de todos. Que dia.

E ainda aconteceu muita coisa boa. Stooges é a coisa mais roqueira que existe no mundo. Iggy Pop, no alto de seus 58 anos, corre o palco inteiro, simula sexo com o amplificador, não pára de pular e ainda causa confusão quando pede que todos subam no palco. Deixa qualquer moleque no chinelo, quem dirá os caras cheios de “atitude” que aparecem por aí. *COF*Chorão*COF*. Tocaram todos os clássicos, centrando o repertório nos dois primeiros discos. Ou seja, teve “Raw Power”, teve “I wanna be your dog”, teve “TV eye”, teve “No fun”. e teve mais. E ainda xingou a MTV, que tava filmando o show e a toda hora ligava as luzes. “Turn the fucking lights on! I don’t care about MTV! FUCK MTV!”. Genial.

Depois, Sonic Youth. Que eu não conhecia muito, mas que seria realmente impressionante se o som não estivesse tão baixo. Quase não dava pra escutar. Pau no cu da produção. E, por fim, Nine Inch Nails. Com o som mais alto de todo o festival. Fechando a noite. 25 toneladas de efeitos especiais no palco. E, simplesmente, a coisa mais pesada que eu já ouvi. Qualquer banda de heavy metal fica no chinelo. Sendo que as músicas são algo bem próximo de música eletrônica, mas com guitarras distorcidas. Quase não dava pra ficar parado, a vontade de sair pulando foi grande, mas o cansaço venceu. Já tava no bagaço. Mas, sem dúvida, show digno de fechar o festival, e olha que o lendário Stooges tinha tocado antes deles. Foda.

E terminou. Cheguei na casa do meu tio às 6 horas da manhã, cansado, com fome, sujo de lama (por que o show foi num gramado, e tinha chovido à tarde). Mas feliz. Com certeza um dos melhores dias da minha vida. E viva o rock!

E chega. Cansei de escrever. Se quiserem saber mais, o andré publicou suas memórias nesses links:
http://palacehotel.blogspot.com/2005/11/oh-my-gawd-its-flaming-lips-claro-que.html
http://palacehotel.blogspot.com/2005/11/this-here-giraffe-laughed-claro-que_29.html, inclusive tem fotos. Eu acabei tendo sorte, apareci numa lado do baixista, bem quando tinha baixado John Travolta fase Embalos de Sábado à Noite.

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2 Responses to “Show dos Lips, um ano depois”


  1. 1 vainalousachefe novembro 26, 2006 às 9:58 pm

    Ah paputaquepariu com um texto desse tamanho viu..


  1. 1 vitiligo no es contagioso Trackback em fevereiro 23, 2016 às 10:57 pm

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